"Se os que me viram já cheia de graça
           Olharem bem de frente para mim,
           Talvez, cheios de dor, digam assim:
           'Já ela é velha! Como o tempo passa!...' "

 
                         (Velhinha - Sonetos de Florbela Espanca)
Magnus Lázaro
"Foi pelo Outono que comecei a arder nas tardes do teu corpo." (João Rui de Souza)
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RECEPTIVIDADE PORTUGUESA
 
                                                                                         Ubirajara Sá
 
     Em Portugal, a passeio, deparei-me com dificuldades ao buscar, nas diversas Universidades de Letras, cursos que me dessem oportunidade de somar ao que já conheço de Linguística. E foi aí que o “bicho” pegou. Após algumas informações desencontradas (o que se acha muito por aqui, embora se ache algumas pessoas de boa vontade...), dirigi-me a Universidade de Lisboa – pública – para buscar elementos concernentes à minha especialidade: quase caio de costas. Havia alguns cursos, dentro do mestrado em Linguística, mas os preços cobrados deixaram-me frustrado. Decepcionado, desisti!
       Como toda pessoa teimosa, continuei peregrinando em busca de algo, se não no estudo, talvez alguma coisa que me deixasse feliz por visitar a nossa mãe terra. Quem sabe os “autocarros”, os “comboios”, os “metros, os elétricos (bondes)”, que diariamente percorrem as vias de acesso da Cidade de Lisboa deixando-nos extasiados pela suas pontualidades; levando-nos a passear por “lugares dantes já navegados”?!
Fico feliz quando viajo de autocarro, pois a inveja toma-me de imediato. Explico: o autocarro – ônibus – carrega poucas pessoas, tem degrau nivelado com a calçada, suas duas portas largas que se fecham e se abrem ao soar um alarme quando acionada para que os passageiros subam ou desçam. Elas são dividas em duas partes. A pessoa, para fazer uso do autocarro e outros veículos locomotivos, tem que comprar o bilhete antes. Pode-se até pagar no embarque, mas, além de mais cara a passagem, tumultua na hora de maior movimento. 
       O “metro” (aqui) ou metrô, como é chamado aí no Brasil, já está bastante acabado, talvez pelo tempo de uso, haja vista que, na Europa, esse tipo de transporte é antiquíssimo. Isso até que me deixa triste, pois, no mais, envergonha-me ver os metros correrem nos “trilhos” em horários absolutamente determinados, enquanto isso não ocorre no nosso país, infelizmente. Com os “comboios” ocorrem o mesmo; sempre na hora certa eles deixam e chegam aos seus destinos.
      Visitei a Feira da Ladra. Isso mesmo, Ladra. Uma espécie de “Feira da Pechincha”. Vende-se de tudo! Fica bem próxima do Alfama – um bairro boêmio da antiga Lisboa. Acredito que esse local é tão antigo quanto a Cidade, pois, no mesmo ambiente está localizado um Castelo em ruínas que vem do tempo dos Mouros.
Ao descer do autocarro, fiquei perplexo. Recebi tantas recomendações para ir visitá-la, que não poderia abster-me de comparecer àquela inusitada localidade de negócios. Realmente, é impressionante como o povo comparece à feira a fim de comprar objetos diversos. Muita gente; muitos carrões... Gente muito branca (quase todos) andando pra lá e pra cá, com óculos pretos, em busca de pechincha. Fiz uma ligeira reflexão para lembrar-me de onde já havia visto aquela imagem de feira, tão contundente... Aí veio à memória: feira hippie, o que nem todos aceitam a comparação; feira do rolo, também não aceita como parâmetro. Mas creio que as feiras das quais tenho lembranças, são visitadas, na sua maioria, por pessoas de poder aquisitivo baixo. Aqui não! Fiquei impressionado com as aparências dos “gajos” que a feira visitavam para comprar. Carrões... Muitos carrões (quem assiste a filmes de 007 pode fazer uma ideia do que falo... Verdade! Fiquei até com medo de pensarem que eu fosse da Gang de Bin Laden...). Parece até que Portugal não atravessa uma fase difícil...
       Foi ali que me veio à lembrança de onde nós, brasileiros, tiramos nossa força de persuasão, nossa força de argumentação, de enrolar, de “convencimento”; nossa esperteza... Ali, na Feira da Ladra, ou dos ladros a pessoa vê onde se escondem os telelemóveis (celulares) e todos os seus componentes que são furtados; roupas velhas negociadas por baixos preços e vendidas acima do que deveria... Tem tudo que a pessoa precisa! Gente de toda parte está ali vendendo os seus materiais: bolivianos, brasileiros, africanos, russos, indianos, ciganos e, claro, muitos portugueses.  Não tem só espécimes roubados, também há coisas boas, claro! Não iremos aqui depreciar os nossos caros irmãos que tanto lutam para sair do inferno astral em que, no momento, vivem. 
        Lisboa tem muita coisa bonita: tem Belém – lugar próximo ao Rio Tejo – de onde “Pedrinho” saiu para “descobrir” o Brasil; tem o Castelo de São Jorge – e muitos brasileiros passeando; tem a Igreja de São Vicente de Fora; Ruínas e a Igreja Ortodoxa Romena. Eu fui ver a túmulo de Vasco da Gama e de Camões. Arrepiei-me! Sério! É um negócio... Gente... Muita gente no Mosteiro dos Gerônimos.
       As ruas lembram-me o pelourinho! Tive uma dor de corno retada... Os elétricos subindo e descendo às ruas estreitas, coloridas... Os botecos apertadinhos, com os seus vinhos e cervejas geladas... A cerveja só vive gelada – um frio miserável!  A vista do cais é linda! Só fiquei, aliás, ficamos – só agora estou a falar na minha companhia; era minha mulher - amedrontados quando íamos passar por uma rua estreita e um senhor, escondidinho, fez-nos um sinal para não seguir adiante. Paramos, imediatamente, e retornamos por onde havíamos entrado, pois, anteriormente, quando estávamos “rangando” um bacalhau com batata palha, e tomando um vinho do ano de 2005, gostoso, a garçonete (empregada de mesa – assim mesmo!) falou-nos para ter cuidado com o lugar. Aliás, aqui todos nos orientam para ter cuidado com ladrões. Pensei que era só na minha terra... Que nada, aqui também tem, e de toda nacionalidade: indiano, russo, português, alemão, espanhol, cigano (esse então...)... Você tem que andar com a bolsa na frente do corpo, dinheiro e documentos escondidos dentro da calça... É um inferno! Minha companheira discorda; acha que é tudo mentira. Mas eu não descarto e tenho cuidado.
      Os elétricos (bondes), os automóveis, os autocarros, todos passam lado a lado sem se tocarem: um espera o outro. Fico embriagado, pois nunca vi isso no Brasil. Aí, a primeira coisa que pode acontecer é o condutor do veículo descer e querer dar “porrada” no companheiro. Ninguém se entende nessa terra poderosa chamada Brasil. Um quer engolir o outro.
       Portugal, velho continente, Lisboa, velha cidade, lugares lindos, mas parece que ainda devem muito aos ingleses, pois eles não saem daqui. Os portugueses usam muito a língua inglesa nos letreiros e cartazes, ou seja, murais. Também falam e estudam muito o inglês, embora sejam vizinhos, colados com os espanhóis. Os irmãos, embora muitos não nos queiram, são boas pessoas. Simpáticos – quando gostam e geralmente os mais humildes -, falantes, tristes (vivem uma situação difícil), mas receptivos: recebem bem os ingleses, os espanhóis, os russos, os alemães...                                                  
Magnus Lázaro
Enviado por Magnus Lázaro em 22/04/2012
Alterado em 22/05/2012
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(O Palácio da Ventura -Antero de Quental)