"Se os que me viram já cheia de graça
           Olharem bem de frente para mim,
           Talvez, cheios de dor, digam assim:
           'Já ela é velha! Como o tempo passa!...' "

 
                         (Velhinha - Sonetos de Florbela Espanca)
Magnus Lázaro
"Foi pelo Outono que comecei a arder nas tardes do teu corpo." (João Rui de Souza)
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O Banheiro Público
 
 
                                                                                                                        Ubirajara Sá
 
 
 
     Por aqui, em Paris, tem banheiros públicos muito bem organizados. As pessoas sentem-se mais seguras depois de tomar umas beer (biér - cervejas) geladinhas, naqueles copos enormes, de 500 ml, ou seja, de meio litro. A pessoa sai do bar tranquilo, no caminho, o bicho pega. Isto é, aqueles que não têm carro. O que acontece com a maioria dos visitantes.
      Nas portas automáticas, dos sanitários, contém todos os botõeszinhos indicando o que dizem respeito ao uso: ocupado, limpeza (quem está de fora ouve a descarga funcionando), permissão para entrar com direito a todas as necessidades correspondentes aos desejos físicos até que vem o silêncio indicativo de que já é chegada a hora de um novo usuário tomar o seu lugar na privada. Ao adentrar o sanitário, o usuário tem a sua mão mais controles de segurança: fechar e abrir porta, orientação de como utilizá-lo - voz em francês. Se a pessoa entende, liga e ouve; se não, faz o que deseja e se manda, pois, lá fora, já tem gente esperando a vez, o que só acontece depois da limpeza e autorização para o próximo tomar o seu lugar. 
     Eu, sinceramente, fiquei perplexo quando vi um rapaz que estava na fila, esperando a sua vez, e, de quando em quando olhava no relógio para ver o tempo que a máquina iria permitir-lhe entrar para aliviar as suas torcidas tripas intestinais que deveriam estar cheias do maldito excremento temporário ou, quem sabe, atemporal. Pois é, amigos e amigas, a “machine” também tem vontade própria! Pois então...! E quem garante que o pobre homem não estava a suportar uma inconsequente cólica, oriunda de uma comida mal digerida e que lhe atormentava durante aquele tempo de espera?!  Ou, quem sabe, tomou um daqueles copos enormes de beer? Ninguém pode saber, não é mesmo? Então vamos lá! Ali, em pé, suando, calado, às vezes vermelho; às vezes amarelo... Mas o austero cavalheiro, homem de verdade que ali estava aguardava a sua vez pacientemente. 
     Era dever de todos que ali chegassem demonstrar um mínimo de respeito àquele homem sofredor. Aquele homem cansado de esperar por sua vez. Aquele “macho” francês... Bem, tudo dava a entender que era um gaulês; não aquele nascido no País de Gales, mas aquele originário dos ideais do Grande Presidente De Gaulle; o homem que falou que o Brasil não era um país sério... 
     Reparei que o misterioso cidadão estava acompanhado de um carrinho cheio de compras. Mas como eu havia tomado uma beer, na hora do almoço, não podia ceder-lhe a minha vez, haja vista que a minha bexiga encontrava-se a ponto de estourar. Emudeci, pois aprendera, há muito tempo, que quando não falamos os órgãos responsáveis pela excreção aquietam-se. Pois, foi o que fiz: fiquei mudo, embora por dentro estivesse em reboliço.
     Para não complicar, encurtarei o caso contando, rapidamente, o acontecido naquele dia tão infeliz para o grande homem francês (quem sabe inglês – o cara era branco-avermelhado, portanto não dá para definir sua nacionalidade. Podia ser alemão, pois são bem vizinhos.).
     Chegou a minha vez. Entrei fiz um monte de xixi (pensam que lavei a mão? Não, meus caros, não as lavei! Saí com elas assim como entrei) e saí dali o mais rápido possível. Eu era o cara que estava à frente do amigo brancão. Ele deveria estar pau da vida comigo, pois ora sim; ora também sim ele me olhava de soslaio como se fosse me torcer com uma mão só. Ao sair do local, notei que o camarada entrava com carrinho e tudo. Não sem antes esperar que a voz, em francês, ordenasse a sua entrada: eu apertara o botão, talvez sem querer, para a voz orientar, e, logo após, apertei o botão de abrir porta. 
     Olhei e vi o cara com os olhos esbugalhados, enormes, espiando-me de lado, como um tigre que vai pegar a presa sem avisá-la. Inda bem que o banheiro foi camarada com ele: abriu a porta sem fazer a limpeza geral. Sorte dele, pois eu não descarregara o intestino e sim a bexiga.
 
Magnus Lázaro
Enviado por Magnus Lázaro em 22/05/2012
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(O Palácio da Ventura -Antero de Quental)