"Se os que me viram já cheia de graça
           Olharem bem de frente para mim,
           Talvez, cheios de dor, digam assim:
           'Já ela é velha! Como o tempo passa!...' "

 
                         (Velhinha - Sonetos de Florbela Espanca)
Magnus Lázaro
"Foi pelo Outono que comecei a arder nas tardes do teu corpo." (João Rui de Souza)
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         O Sufoco Que Passei no Ônibus em Strasburgo

                                                                 ​Por Magnus Lázaro
 
 
     Caso interessante aconteceu comigo numa Cidade do interior da França, chamada Strasburgo. Talvez até já tenha ocorrido com alguns dos leitores deste texto que me ponho a escrever, mas nunca é demais sacudir a poeira para sujar alguns a fim de que relembrem aquilo por que passaram ao longo desta vida tão insignificante. E se digo insignificante é porque nunca podemos nos inebriar pelo que fazemos ou deixamos de fazer, mesmo que sejam coisas incomuns. Incomuns é um eufemismo fajuto, mas vamos lá, que o seja, o importante é sacudir a poeira, relembrar momentos da vida; relembrar o que passamos neste pedaço de chão que nos acolheu e acolhe de braços abertos.
            Bom, como citei, anteriormente, estava eu na Cidade de Strasburgo e o meu estômago roncava, pois já passara da hora da bóia quando lá cheguei. Também estava doido de vontade de beber uma cerva bem gelada num daqueles copos enormes que a gente vê pela TV, nos pub; mas também morria de fome. Acho que era porque enquanto estive em Portugal só bebia vinho! Entrei em um restaurante tradicional, todo de madeira, com aquela “máquina” de expelir beer ou biér (sinceramente não perguntei o nome da máquina) e fiquei todo prosa. Vejam vocês, eu, paruara de Salvador, acostumado a tomar cerveja - às vezes um chopinho brabo em Ondina - pesada (não vou aqui fazer propaganda de graça, não é mesmo?), sentado em um restaurante francês, todo cheio de telas a óleo de Renoir e outros famosos mais... É para tomar todas, ficar bebum, como diz um poeta popular, pois, a cada gole, eu me beliscava e pedia para alguém me catucar.
            Gente! Eu fiquei doido! Pedi um copão enorme, 500 ml. Lindo...! Segurei o bichão só com uma das mãos e suspendi-o! Falei: isso que é cerva! Ou seja: beer (biér – pronúncia, pois a escrita é a mesma do inglês). Leve, gostosa... Descia bem, sem arranhar... Foi o primeiro copo e logo pedi outro. O que o empregado de mesa (como chamam em Portugal), de imediato, serviu-me de bom grado. Lá, na França, não procurei saber, mas acho que é garçom mesmo. Só sei que era um coroa grandão, vermelhão e todo risonho. Entendi quando ele me perguntou: biér ou bière? Ui, monsieur! Essa foi boa, não foi? Pois é, respondi a altura: em francês. Muito gostoso, eu tirei até fotos! E estou bonito paca!
            Bom! Saí dali e fui para o ponto do ônibus. Estava satisfeito. Comi e bebi. Só faltava aquele relaxe, e, para isso, teria que chegar ao hotel.
            Esperamos uns instantes (nesses lugares da Europa o pessoal leva horário a sério), conforme prometera uma tabela de chegada e saída do ônibus. Logo ele apareceu. Não demorou e saiu, conforme o estabelecido na placa que marca a hora de partida.
            Saímos do centro da cidade e adentramos num vilarejo lindo. Casas de Papai Noel, paisagens pastoris, árvores frondosas, ruas limpinhas... Tudo conforme o figurino francês. Uma beleza! Eu, que não sou besta, fotografava tudo. Queria documentar aquela paisagem para depois não dizerem que eu estava chutando; e também para dar testemunho dos fatos a fim de que eu mesmo não pensasse que sonhara com o que, na hora, via com os meus próprios olhos (essa é velha, mas é boa!). Era Lampertheim!
            Enquanto o ônibus corria, eu sentia que algo estranho iria acontecer. A bexiga (se não me engano, acho que já falei dessa tal bexiga, em algum lugar!) ia enchendo e eu ficando desesperado. Falava para mim mesmo: pô, velho, se apertar, como irei saltar? Eu não falo francês, o motorista não fala português, nem tampouco entende. Entre os passageiros não havia quem entendesse a tal língua portuguesa... Meu Deus! E agora? Falei para minha companheira – a senhora a quem jurei fidelidade por muitos anos, ou seja, a minha mulher: to com vontade! Vou saltar! Ela disse que não o fizesse, pois estávamos muito longe. O bicho pegou! Quando compramos a estadia do hotel, pelo email, nos disseram que o dito local para repouso ficaria a alguns metros do ponto do ônibus. Mas, meus caros e nobres, foi pura mentirinha. O porreta do francês nos enganou. Idiota que fomos, pois se não falávamos a dita língua francesa... Continuemos! Era sábado e a “rota”, naquele dia, era outra. Normalmente o ônibus gasta dez a quinze minutos para o centro. Mas, naquele dia, justamente naquele dia... Meu Deus! O que fiz eu para passar por tremendo suplício, pelo sofrimento de um ser perdido no Saara... No deserto inaudito de um mundo sem começo e sem fim!
            Continuemos nossa jornada pelo mundo dessa narrativa infindável! Meus caros, minha bexiga estava cheia e não havia como torná-la vazia. O frio pela espinha tomava-me doilorosamente impulsivo; eu estava congelando de medo de ali, naquele lugar mórbido, onde ninguém olhava para ninguém; onde só os mortos se entendiam; onde os humanos se alheavam; mijar nas calças! Achei que era o fim de um bravo brasileiro, no meio de tanta gente insossa. Mas havia uma pessoa a meu lado que não me deixava esmorecer: minha mulher. Era o diabo! Eu falava baixinho: vou descer! Ela, imediatamente, dizia-me que não; que esperasse mais um pouquinho. Ora bolas! Como é que eu iria esperar mais esse pouquinho se já começara a molhas a calça? Não, eu não aguento mais, vou descer! Ela, então, dizia: não, espera, já, já estaremos chegando! Nesse ínterim, ela se dirigiu a uma senhora que estava ao lado e mostrava o nome do hotel. A senhora, por sua vez perguntou, em francês, a um senhor que estava mais atrás. Já viram que, nessas alturas, todo mundo olhava-me espantado. Eu fazendo caretas, apertando as pernas... Não suportando mais aquela situação, corri ao motorista e pedi para que ele parasse o veículo no ponto mais próximo. Apontei para o “bagre” (o meu querido companheiro de jornada: o chamado pinto ou piru, como queiram...) e fiz sinal de que precisava “tirar água do joelho”. Minha mulher gritou para o motorista: não, não para! O cara parece que entendeu e fez sinal pra mim e disse: non! Aí eu corri para perto de minha mulher e falei que iria mijar ali no ônibus. Ela pedia: aguenta mais um pouquinho, ta chegando... Foi um bololô tremendo. Eu me apertava; o coroa dizia: non! Eu falava: si, si, si! Toilette! Aí eu apertava a companhia. Neste momento, todos gritavam: non! Minha companheira gritava: bota o casaco na frente, bira! Não olha pra calça! Aí, eu gemia e gritava: vou mijar, vou mijar; não dá mais! Nesse instante eu ouvia: non! non! Eram os companheiros de viagem, carrancudos, que, de repente, ficaram amáveis.
            Bem! Ficamos assim por um bom tempo. Até que o bendito motorista parou no que se dizia ponto, e nós saltamos. Não precisa relatar o que ocorreu, não é mesmo? Larguei tudo que estava nas mãos e saí desembalado pro mato. Só escutei as risadas dos gentis passageiros, e os olhares maliciosos a espreitar-me, enquanto o auto-carro seguia o seu destino.
 
Magnus Lázaro
Enviado por Magnus Lázaro em 09/06/2012
Alterado em 24/09/2015
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(O Palácio da Ventura -Antero de Quental)