"Se os que me viram já cheia de graça
           Olharem bem de frente para mim,
           Talvez, cheios de dor, digam assim:
           'Já ela é velha! Como o tempo passa!...' "

 
                         (Velhinha - Sonetos de Florbela Espanca)
Magnus Lázaro
"Foi pelo Outono que comecei a arder nas tardes do teu corpo." (Joăo Rui de Souza)
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A Troca
                                                         
         
                                                             Por Lázaro Magnus
 
 
Paulinho estava com aproximadamente quatorze anos e tinha um amigo que se chamava Jorge que, por ajuda do destino, era da mesma idade. Nasceram no mesmo ano e mês. Um na Bahia, outro no Rio. Coincidência? Será? Dizem que o acaso não existe, mas, se não foi o acaso que os aproximou, então foi o destino. Mas também alguém já disse que isso é improvável. Ora, vê-se que o que mais interessa nisso tudo é como se aproximaram e tornaram-se amigos por muitos anos. Até que o destino, o acaso, a predestinação também os afastasse um dia.
Foi com esses amigos, caros amigo, que aconteceu um caso hilário, se não fosse a condição e o momento em que ocorreu o fato. Algo muito triste, diga-se de passagem, pois, naquele momento, o negócio era seríssimo. Afinal, eles eram trabalhadores; acordavam cedinho para batalhar, a fim de ajudar na casa; ganhavam pouco; e, de repente, foram pegos de surpresa. Hoje dá para rir, mas, na época, houvera muito chorororô.
Vinham eles do trabalho – sempre se encontravam no caminho, na hora marcada – conversando, rindo, felizes. Costa – também conhecido por esse apelido - havia recebido o pagamento da semana; Paulinho não, por isso estava despreocupado. Costa havia escondido o dinheiro em uma sacola, para que ninguém o roubasse... Bom! Conversa vai, conversa vem, e lá se vão os grandes trabalhadores.
Gostavam de passar pelo Campo de Santana, onde havia muitos coelhos e preás. Com o que se divertiam bastante. De repente, sem nenhum aviso, apareceu um senhor, todo estrambelhado, com um pacote na mão, sem tirar os olhos dele e, mostrando-se feliz, muito feliz:
 - Veja o que eu achei!
Ficaram olhando para o cara, meio desconfiado...
- Eu hein! Quem é esse? Perguntaram-se.
E o cara, feliz, abriu um pedaço do pacote e mostrou o que havia dentro. Paulinho Olhou para Jorge, Jorge olhou para Paulinho... Paulinho viu nos olhos do amigo, pois o conhecia bastante, que havia uma centelha de esperteza:
- O que você acha, Paulinho?
- Rapaz, disse Paulinho, acho melhor cairmos fora dessa! Não vê que se esse dinheiro fosse do cara ele jamais chegaria perto de nós!
- Se ele tivesse achado, iria nos mostrar?
- E aí? Falaram para o esperto.
- O que tu quer?
- Eu estou duro, preciso de dinheiro, não tenho como chegar a casa. Vocês bem que podiam me ajudar!
- Mas como? Falou Jorge.
- Vocês devem ter uma grana aí. Aqui deve ter muito dinheiro. Se alguém me ver com esse pacote na mão podem pensar que eu roubei. Assim, fica melhor pra vocês, pois estou vendo que carregam bolsa e podem esconder. Jorge logo se apressou em combinar a troca.
- Você quer quanto?
- Você me dá o que tu tens, e eu lhe dou o pacote! Falou o esperto.
- Como vou saber quanto tem nesse pacote?
Jorge já estava entregando a sua grana naquele momento...
- Rapaz, neste pacote deve ter mais de duzentos cruzeiros... Disparou o aventureiro!
- Tá legal! Vamos trocar.
O homem entregou o pacote e Jorge depositou sua grana nas mãos de um desconhecido.
O espertalhão saiu dali apressado; não sem antes deixar um conselho para o Jorge:
- Só abra quando estiver bem longe que é para ninguém ver!
- Gritou Jorge: tá bem, só vou abrir em casa!
Bom, saíram correndo, apressados e foram embora. Quando chegaram ao trem – a Central do Brasil fica do outro lado da Avenida – encostaram-se bem no engate, entre um vagão e outro, e puseram-se a verificar quanto continha no pacote.
Abriram um pedaço e, qual não foi a primeira surpresa – a outra viria depois: só tinha nota de um cruzeiro. Paulinho olhou pra Jorge e viu a transformação do amigo: Jorge estava pálido. Ele era um rapaz pintoso – todos o chamavam de Elvis Presley – e estava que nem um Jeca. Não acabara de abrir o pacote, ainda, e quase cai durinho. Coitado! Paulinho morreu de pena do Jorge! Só havia papel no pacote. Jornal cortado do mesmo tamanho de uma nota de cruzeiro com umas duas ou três verdadeiras por cima.
 - O que vou fazer agora Paulinho? Perguntou desesperado.
 - Esse dinheiro era para minha mãe fazer as compras da semana!
Paulinho, então, tentou confortar-lhe no que pode, mas o amigo chegou a casa chorando. No entanto, como mãe é sempre mãe... Acalentou o querido parceiro e disse-lhe:
- nunca mais queira ter além daquilo que você pode! Lógico que aquilo serviu para o coleguinha também, afinal, sempre foram amigos, e não era daquela vez que um irmão, como se consideravam, iria deixar o outro sofrer sozinho.
 
   
 
 
                                                                                 
Magnus Lázaro
Enviado por Magnus Lázaro em 16/06/2015
Alterado em 23/02/2017
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                                               O palácio encantado da Ventura!"

                                                         
(O Palácio da Ventura -Antero de Quental)