"Se os que me viram já cheia de graça
           Olharem bem de frente para mim,
           Talvez, cheios de dor, digam assim:
           'Já ela é velha! Como o tempo passa!...' "

 
                         (Velhinha - Sonetos de Florbela Espanca)
Ubirajara Sá
"Foi pelo Outono que comecei a arder nas tardes do teu corpo." (João Rui de Souza)
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O Seu Abóbora
 
Largo do Tanque, Bairro de Salvador, Rua Tanque do Meio, lá residiam Wanderfild e sua esposa. Recém casados, por obra e graça da mãe do malandro, D. Julieta, pois ele, astuto e malabarista da vida, não queria nada com o casamento.
Até os treze anos, o “minino”, como sua mãe costumava chamá-lo, fora o caçula da família, mas não demoraria muito para ele perder o privilégio do posto. É que, de repente, D. Julieta anunciara que esperava mais um rebento. Ela dera azar, pois tudo falhou nos seus prognósticos; haja vista que, como parteira, sempre tomara cuidado a fim de não gerar mais filhos, para isso contava com a Lua como proteção. Enganara-se na conta, pois, com quarenta anos de idade, um dia iria sentir algo estranho no seu corpo, o que a levara imaginar que seria um bicho ou alguma coisa anormal – um fantasminha, talvez, já que se passara muito tempo desde o último filho e a sua idade longeva – estava com quarenta anos de idade. Desconfiada, era só pensamentos obscuros; pois não contava com qualquer desastre, como ela mesma costumava falar.
Bom, passado algum tempo, D. Julieta tornaria concreto o que andara sonhando: o Fantasminha nasceria para aumentar sua prole. O novo rebento seria, definitivamente, o caçula da família. Wanderfild ou Índio – como era tratado pelos demais, perdeu o seu lugar de honra, já que, até então, era o “dengo” da casa. Crescera e, junto com ele, o mais novo integrante da família de D. Julieta, o Tacaco ou Seu Abóbora; alcunha do recém chegado. Apelido dados, em reunião, ao novo integrante da família. Chegaram a essa conclusão ao notarem que o “minino” era muito esperto. O garotinho tinha uma cabeça grande e era muito inteligente – falavam que o recém-chegado tinha a cabeça de Rui Barbosa, conterrâneo conhecido no país pela sabedoria e pela cultura. Só se acrescentara mais uma boquinha, nada mais. O garoto era simpático e todos gostavam dele, inclusive e mais precisamente o jovem Índio que não se afastava do pimpolho esperto.
Tinha vinte anos de idade, quando saiu para trabalhar, o jovem Índio. O rapaz era bajulado pela mãe e não queria nada com o batente. Dona Julieta tinha pena. Dizia que era franzino, coitado! Deixa-o ficar mais forte para fazer alguma coisa! Mulher trabalhadora, valente e cheia de opiniões próprias, sabia que o malandro só queria praia, namoro e pesca de mergulho – o que ajudava muito na comida da família. Dona Julieta já houvera “despachado” o mais velho para aprender o ofício de mecânico, na Cidade, aos quatorze anos.
O Índio conhecera o mundo e, nele, começou a aprontar como se estivesse na sua casa. Ficara à vontade. Conhecera uma moça do interior que veio residir em Salvador e começou a namorar. Pensou que iria “aprontar” sem o devido castigo: casar. Correu daqui e dali, mas D. Julieta estava no seu pé. Gostou da moça e fez o malandro casar. Ele, antes, fugira para o recôncavo, onde trabalhava. Lá se escondera, mas a mãe que o conhecia muito bem, fora até ele e o trouxe com ela para preparar o casamento. Casou-se e, finalmente, deixou a casa da mamãe, onde, durante muitos anos, fora paparicado.
Residiria com a esposa numa casinha em um bairro próximo ao centro de Salvador. Ali o casal permaneceria até fugir para o Rio de Janeiro, onde faria o seu “pé de meia”. Mas, aí, já é outra estória. Vamos falar do tempo que o casal morou na casinha simpática. Foi ali, naquele local alegre, onde aconteceu um causo interessante, envolvendo o caçula, agora com onze para doze anos.
Certo dia, Dona Julieta, estava com o Tacaco fazendo uma visita à casa dos recém casados quando, em conversa trivial, combinaram ir assistir a um filme, à noite. Obviamente, o casal e D. Julieta. Tacaco, ouvindo aquela conversa, de súbito, disse que também queria ir. A mãe, de imediato, argumentou que ele não os acompanharia, já que, além de ser noite, o filme era proibido para menores de quatorze anos. Teimoso, o garoto fez beicinho, bateu o pé e falou: eu vou! Não fizeram fé e o esqueceram.
À noite, quando se preparavam para sair, já arrumados, roupa de festa, perceberam que o caçula estava prontinho para ir a algum lugar. Imaginaram que, provavelmente, o pentelho estava de gozação, de brincadeirinha. Nada disso, o negócio era sério. O minino, agora assim chamado, era esperto, não falou nada... Deu adeus aos três e ficou quieto. Bem! Os adultos saíram e pediram à vizinha para dar uma olhadela no garoto. Tacaco, percebendo que a mulher não era tão atenciosa, aguardou todos afastarem-se e, num repente, irrompeu porta afora, rapidamente, e, pronto. Chegando ao ponto de ônibus o garoto reparou que os três adentravam o veículo que, sem demorar muito, arrastou levando os passageiros felizes.
Tacaco, menino danado, esperto partiu atrás do ônibus, correndo. Quando o carro parava, o garoto ultrapassava como se fora um raio. Ficou assim por longo tempo, até chegar ao terminal de desembarque dos espectadores surpresos. Mas, antes, um passageiro observador que vira o garoto disputando corrida com o carro de passageiros, chamou atenção de todos. Dona Julieta, ao reconhecer o seu pimpolho, fechou a cara e embraveceu-se. O minino travesso, num momento que o ônibus parou numa cancela de trem, passou por baixo da trave, pulou sobre a linha e foi embora. Chegando ao cinema, o garoto aguardou o transporte chegar trazendo sua família. Ele cortava caminho, por isso chegou antes. Tacaco estava preocupado com sua mãe, ela era muito ranzinza.
Quando a família de Tacaco desembarcou viu o espertinho lá, esperando. Sua cunhada e o seu irmão riram, mas sua mãe... Foi até junto de Tacaco pegou na orelha dele, deu aquele beliscão e disse-lhe: você não irá entrar. Volte! Que minino danado... Disse ela! O irmão, vendo aquilo, de imediato, pediu a sua mãe que deixasse o traquina entrar. Conversaram que o garoto não teria idade para assistir ao filme. Índio, então, disse a ela: deixa comigo, eu dou um jeito. Foi comprar os ingressos e adentraram no cinema. Na entrada, o porteiro disse ao irmão que o garoto não tinha idade para assistir à película.  Foi aí que Índio, malandro que sempre foi, empregou sua lábia e tentou convencer o bilheteiro. Ele tem quatorze anos, meu caro! Pergunte a minha mãe, que está conosco! O cara, meio desconfiado, olhou direitinho para o minino... Seu Abóbora, outro apelido do garoto, vestia-se de calça comprida, como um homenzinho... O garoto é pequeno, mas tem idade! Veja o cabeção dele! O cabeção mostra como ele é inteligente, tem idade, sabe tudo! O porteiro, ainda desconfiado, depois da afirmação da mãe do garoto concordou e deixou o minino entrar. Mas o que seu Abóbora recebeu de beliscão... Mas isso já é outra estória... Ao filme ele assistiu! Era uma película de espada, sua preferida!
Ubirajara Sá
Enviado por Ubirajara Sá em 31/10/2017
Alterado em 01/11/2017
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