"Quem me confia em olhos,

               Nas meninas dele vê

                    Que meninas não têm fé."

 

                                   Camões.

               

Ubirajara Sá
"Três âncoras deixou Deus ao homem: o amor da pátria, o amor da liberdade, o amor da verdade."
Textos
Amor e Ódio
Hoje eu fui muito feliz
Senti uma rosa exalando perfumes
Aroma que traz de raiz
Onde brilhantes e vagos ciúmes
De dores diversas, de idéias mil
Controversas figuras; um senil
Que canta em voz alta...
Mas a luz, que, da ribalta,
No meio pueril, não se embriagou
Fez do meu caminho tortuoso
De luto e desamor
Um rosário de paz venturoso.

Essa rosa, muito dengosa,
Faz de mim um homem forte
Com sua forma, formosa
Uma fôrma apontada pro norte
Norteia-me e esconde-me nos braços
São lindos os seios, são belos os meios
São claras as formas e os traços
O sorriso que canta e encanta
Faz de mim seu servidor...
Seu escravo de pele e de amor
Sua voz é canção, é um mantra.

E por que essa rosa não veio
Antes que a despetalassem?
Escuto Pavarotti cantar Caruso
E obrigo-me a pensar num meio
De não lhe ver em "camicase"
Por um amor amargo e confuso
Pois o amor que tivera
Um sórdido, um vulgo, um verdugo
Réptil, musgo, espadaúdo
Carcomida, pestilência social,
Abrigo da miséria, palco da pilhéria
Simbiose de homem e molusco
Patusco, verme, verminose
Que suga, que suga-sangue exangue.
Por que minha flor serena, simbiose
De paz e amor, não me veio antes?
Por que minha vida,
Antes da mulher sofrida
Nas mãos de um peste, um pesticida
Não me chegou moça ainda?

E eu na mocidade aguerrida
Para salvar minha mulher querida
Das mãos de um vil gladiador
Das entranhas de um víbora sugador
Não irrompi com furor
Antes o que o sol nascesse
Antes que escurecesse
Antes que a tarde ficasse tarde
Para caminharmos, a sós, por aí
Sem máculas, sem traumas
Na calma do mundo
Onde eu seria menos  profundo.

Por que só agora, já que sempre a vi
Nos meus sonhos, nos meus caminhos;
No canto dos pássaros, da amiga Juriti...
Por que só agora, no meio dos espinhos?
Eu não a quero longe, inda que ali;
Ainda que aqui dentro de mim...
Levei anos para encontrar o que perdi;
Levei anos para saber que estava aqui;
Precisei dormir; dormir para acordar;
Para sorrir, para voltar, para sentir;
Para saber de mim. Em nunca vivi...

Agora eu a quero mais que tudo
Fui ao fim, voltei, estou aqui!
Aqui estamos nós, do absurdo mundo
Mundo do absurdo, frente-a-frente
Sorriso nos dentes, um frenesi
Constantes galanteios, abraços, beijos...
Sons de realejos, pernas cruzadas
Entre pernas, entre coxas amadas;
Sexo no sexo, ato de amor com nexo;
Saudades multicores, peitos no peito;
Uns trejeitos, uns esfregas, entregas...
Um amar sem fim, um perguntar por mim
Por ti, onde está, onde estavas
Saí, zanguei... Não é assim! Cava
A alcova pra mim! Encrava em mim
No meu peito, o direito, o torto!
Por favor, amor, ame-me com força!
Esqueça sua outra vida de moça...
E, madura, ouça o cantar do meu amor
Canto sofrido, de dor, de querer...
Um amor que dói por estar longe de você.
Ubirajara Sá
Enviado por Ubirajara Sá em 03/07/2010
Alterado em 24/12/2011
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     "Oh! Não te espantes não, Dom Antônio, 

     Que se atreva a Bahia

     Com oprimida voz, com plectro esguiu

     Cantar ao mundo teu rico feitio, 

     Que é já velho em Poetas elegantes

     O cair em torpezas semelhantes."

                                                            Poesias Satíricas - G. de Matos.

 

     Uma Canção

 

         "Uma canção ao longe... É um mendigo que está cantando...

                                                  Se esse pobre canta,

                           por que blasfemas, tu que possuis tão

                              doce recordação da vida, amigo?"

                             Cem poemas chineses - Hugo de Castro.